DOI http://10.61270/2764-7641.2023.012
Alguns usos de Plantas Medicinais Utilizadas pela Comunidade Indígena Terena da Aldeia Buriti
Valdinez Gabriel
Mestre em Ciencias Ambientais pela Universidade Católica Dom Bosco.
Matheus Martins Souza
Acadêmico de Direito da Faculdade Prime
Josimara Nolasco Rondon
Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Mestrado em Biologia Vegetal pela Universidade Estadual de Campinas e Doutorado em Biologia Vegetal pela Universidade Estadual de Campinas; Docente de curso técnico de Meio Ambiente da Rede Ceteps; Docente da Graduação de Enfermagem da Faculdade Prime.
RESUMO
Etnobotânica estuda as informações que as pessoas têm sobre a utilização de plantas medicinais. São esses conhecimentos que define a comunidade e sua relação com as espécies vegetais, pois cada grupo apresenta particularidades e tradições. Este trabalho objetivou-se realizar um levantamento etnobotânico de plantas medicinais utilizada pela comunidade indígena Terena da Aldeia Indígena Buriti, município de Dois Irmãos do Buriti, Estado de Mato Grosso do Sul. O estudo foi realizado em junho de 2015, utilizando um questionário estruturado. Foram entrevistadas 10 famílias acima de 42 a 95 anos de idade, sendo 5 mulheres e 5 homens. 32 espécies foram identificadas como sendo plantas medicinais utilizadas pela comunidade indígena Terena da aldeia Buriti. Folhas e raízes foram as partes mais utilizadas no preparo de medicamentos. As doenças mais citadas com indicação de plantas medicinais foram respiratórias, gastrointestinais e dores de cabeça. Vale ressaltar que atualmente 90% dessas espécies são coletadas fora das terras indígenas devido à forte pressão antrópica exercida pelo crescimento populacional. Estes resultados confirmam que a comunidade indígena Terena da aldeia Buriti tem vasto conhecimento e utilizam com frequência as plantas medicinais como alternativa de curar seus problemas de saúde.
Palavras-chave: Propriedades medicinais, fármacos semissintéticos, espécies vegetais
INTRODUÇÃO
Desde a pré-história o homem procurou aproveitar os princípios ativos existentes nos vegetais, embora de modo totalmente empírico ou intuitivo, baseado em descobertas ao acaso. Antigos textos caldeus, babilônicos e egípcios já traziam referências a certas espécies vegetais usadas em rituais religiosos (BERG, 1993).
Com o avanço da ciência, foi possível entender porque muitas plantas possuem propriedades medicinais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as plantas
medicinais podem ser definidas como todo e qualquer vegetal que possui, em um ou mais órgãos, substâncias que podem ser utilizadas com fins terapêuticos ou que sejam precursores de fármacos semissintéticos (VEIGA JUNIOR, et al., 2002).
A utilização das plantas medicinais no Brasil teve início com seus primeiros habitantes, os grupos indígenas, que utilizavam as espécies nativas e fizeram uma seleção das plantas que serviam para curar doenças, distinguindo-as das venenosas (Brito et al., 2009).
A sociedade indígena pode ser considerada ainda a maior e mais confiável fonte do conhecimento empírico existente, pois ainda detêm na grande quantidade de informações inexploradas pela ciência sobre formas de como lidar com o ambiente biologicamente diversificado e que podem ser úteis para compreensão destes ecossistemas e para o desenvolvimento de atividades produtivas menos predatórias (Santos et al., 2010).
Considerando a importância do resgate de informações sobre plantas medicinais e visando contribuir com conhecimento das espécies utilizadas pelos índios da comunidade indígena Terena da aldeia Buriti, o presente trabalho tem como objetivo realizar o levantamento etnobotânico de espécies utilizadas na comunidade.
MATERIAL E MÉTODOS
O presente trabalho foi realizado no município de Dois Irmãos de Buriti, nas Terras Indígenas Terena Buriti, Mato Grosso do Sul. A pesquisa baseia-se sobre o uso das plantas medicinais.
As informações para este artigo constituíram por meio de entrevista junto à população local da comunidade indígena. Um questionário semiestruturado foi elaborado com antecipação contendo itens referentes a plantas medicinais utilizadas pela comunidade, bem como a forma e quais partes das plantas eram utilizadas.
As espécies coletadas foram identificadas pelo professor Dr. Arnildo Pott da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e incorporadas ao Herbário da instituição.
Foram entrevistados 10 moradores da comunidade, sendo 05 homens e 05 mulheres, entre 42 e 95 anos de idade com técnica de amostragem aleatória. A coleta de dados foi realizada no mês de junho de 2015.
Os dados foram tabulados e elaborada tabela no programa Microsoft Office Excel, com estatísticas descritivas básicas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram identificadas nas 10 entrevistas, 32 espécies nativas utilizadas como plantas medicinais.
Para utilização como medicamentos, foram citadas várias partes das plantas, tais como raízes, folhas, brotos, cerne, cascas e talos. Sendo que raiz e folhas foram as mais mencionadas no uso das preparações.
Coutinho et al. (2002), em estudo etnobotânico de plantas medicinais utilizadas em comunidades indígenas no Estado do Maranhão observou uma predominância na utilização de cascas para a obtenção dos preparados caseiros (41,0%), seguido das folhas (38,4%).
Resultados análogos foram encontrados por Almeida et al. (2009), onde a parte vegetal mais utilizada na preparação dos fitoterápicos é a folha (72%), seguida pela utilização das partes aéreas (14%), hastes e ramos 8%, outros (6%).
Os nomes populares dos vegetais, bem como as indicações clínicas relatadas estão listadas como descritos pelos entrevistados.
TABELA 1. Relação de plantas medicinais utilizadas pelos índios da Aldeia Buriti, com seus respectivos nomes vulgares partes utilizadas, indicações terapêuticas e formas de preparo (Junho 2015).
Nome Científico Nome Popular Parte Utilizada Indicação Forma de uso
Senna occidentalis Fedegoso Raiz/folha Gripe/
dor de cabeça Chá
Bauhinia forficata. Unha de boi Raiz/folha Bronquite/ Chá
dor de coluna/pedra na vesícula
Anacardium occidentale Caju Broto Dor de barriga Chá
Psidium guajava L. (P. aromaticum L.). Goiaba Broto Dor de barriga Chá
Myracrodruon urundeuva Allemão Aroeira Cerne Dor de barriga Chá
Peltodon longipes Baicuru Raiz/folha Ferida/sarna Banho
Stryphnodendron adstringens Barba timão Casca Ferida/sarna Banho
Lafoensia pacari Didal Casca Gastrite Chá
Stachytarpheta cayennensis Gervão Raiz Dor de coluna Chá
Acanthospermum hispidum DCCarrapicho de carneiro Raiz Dor de coluna
tiriça/gastrite Chá
Bromelia balansae Mez Caraguatá Batata Pedra na vesícula Chá
Phyllanthus orbiculatus Quebra pedra Raiz Pedra na vesícula Chá
Bidens subalternans Picão Raiz Gastrite/tiriça Chá
Commiphora leptophloeos Imburana Casca Bronquite/febre Chá
Cissampelos pareira Orelha de onça Raiz Dor de barriga Chá
Mikania glomerata Spreng.Guaco Folha Gripe/bronquite Chá
Solanum variabile Mart Jurubeba Raiz Diabetes Chá
Gymanthemum amygdalinum Estomalina Folha Dor de estomago Chá
Justicia pectoralis Anador Folha Febre Chá
Baccharis trimera Carqueja Raiz Diabetes Chá
Cecropia glaziovii Embaúba Broto Diabetes Chá
Cardiospermum halicacabum Paratudo Raiz/folha Diabetes Chá
Zanthoxylum rhoifolium Maminha de porca Casca/raiz Doença no sangue Chá
Eugenia uniflora Pitanga de árvore Casca/raiz Limpeza no sangue Chá
Solanum mauritianum Fumo bravo Raiz Febre Banho
Pectis oligocephala Alecrim do mato Folha Descarrego Banho
Chenopodium ambrosioides Santa Maria Talo/folha Pedra na vesícula Sumo
Sida galheirensis Canela de siriema Raiz Dor no corpo Banho
Gossypium herbaceum Algodãozinho Raiz Inflamação no Chá
intestino/dor no corpo
Cajanus cajan Feijão andu Broto Febre Chá
Malpighia emarginata Acerola Folha Gripe Chá
As enfermidades mais comuns nas quais as plantas são utilizadas incluem as respiratórias, gastrointestinais e dores de cabeça.
Silva et al. (2015) em estudo etnobotânico e etnofarmacológico de plantas medicinais utilizadas na região de Matinhos – PR, observou o uso de plantas medicinais para as seguintes indicações: processos respiratórios, inflamações, cicatrizações, ansiedade e dores estomacais.
A forma de uso predominante relatada pelos moradores da comunidade foi o chá seguido de banho. Vasquez et al (2014), também obteve resultados semelhantes, sendo a principal o chá representando 62,2%, sendo empregado no preparo de diversas espécies, seguido de sumo (11,8%), emplasto (7,1%), maceração (7%), banho (6,1%), xarope
(4,8%) e suco (2,2%).
Vale ressaltar que atualmente 90% dessas espécies são coletadas fora das terras indígenas devido à forte pressão antrópica exercida pelo crescimento populacional.
Avaliando os dados levantados nesse estudo constatou-se que a comunidade indígena Terena tem acesso e conhecimento a uma ampla variedade de plantas medicinais responsáveis por prover distintas enfermidades.
REFERÊNCIAS
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COUTINHO, D. F.; TRAVASSOS, L. M. A.; AMARAL, F. M. M. Estudo etnobotânico de
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