PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS SOBRE O DIAGNÓSTICO DO TEA EM ADULTOS: BARREIRAS E IMPLICAÇÕES CLÍNICAS

https://doi.org./10.61270/2764-7641.2025.011

Magnum Conceição e Silva.
Graduado em História; Análise e desenvolvimento de sistemas; Pedagogia e Artes.
Diretor da Ceteps campus Boa Esperança, MT. Docente da Faculdade Ceteps.

RESUMO
Este artigo apresenta uma análise comparativa atualizada sobre o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em adultos, reunindo dados científicos nacionais e internacionais até agosto de 2025. Com base no método comparativo, investiga-se a evolução dos critérios diagnósticos (com ênfase no DSM-5-TR e na CID-11), as principais barreiras enfrentadas por adultos no processo diagnóstico e os impactos subjetivos do diagnóstico tardio. A escassez de profissionais capacitados e o estigma social persistente são destacados como obstáculos centrais. O estudo reforça a importância de políticas públicas e intervenções psicossociais para ampliar o acesso e melhorar a qualidade de vida da população adulta no espectro.
Palavras-chave: DSM-5-TR; CID-11; Transtorno do Espectro Autista (TEA); diagnóstico em adultos; saúde mental.

ABSTRACT
This article presents an updated comparative analysis of the diagnosis of Autism Spectrum Disorder (ASD) in adults, gathering national and international scientific data up to August 2025. Based on a comparative method, it investigates the evolution of diagnostic criteria (with emphasis on DSM-5-TR and ICD-11), the main barriers faced by adults during the diagnostic process, and the subjective impacts of late diagnosis. The shortage of trained professionals and persistent social stigma are highlighted as central obstacles. The study reinforces the importance of public policies and psychosocial interventions to expand access and improve the quality of life of adults on the spectrum.
Keywords: DSM-5-TR; ICD-11; Autism Spectrum Disorder (ASD); adult diagnosis; mental health.

1. INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) representa um conjunto complexo de condições neuropsiquiátricas que afetam significativamente a comunicação social e se caracterizam por padrões restritos e repetitivos de comportamento e interesses. Tradicionalmente, o diagnóstico do TEA ocorre na infância, período em que os sinais são mais evidentes e os sistemas de saúde e educação estão preparados para a identificação precoce. No entanto, nas últimas décadas, observa-se uma crescente demanda por diagnóstico em adultos, impulsionada por mudanças nos critérios diagnósticos do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013) e pela adoção da Classificação Internacional de Doenças – CID-11 (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).
Esse fenômeno, amplamente discutido nas áreas de psicologia e psiquiatria, dá visibilidade à chamada “geração perdida” (LAI; BARON-COHEN, 2015), composta por adultos que viveram sem diagnóstico, muitas vezes recorrendo a estratégias de camuflagem social, convivendo com comorbidades psiquiátricas e enfrentando lacunas estruturais nos sistemas de saúde e apoio. A escassez de profissionais capacitados para avaliação em adultos e o estigma social persistente são barreiras determinantes que dificultam o acesso ao diagnóstico e ao suporte adequado (LEWIS, 2017; CUNHA, 2025).
Por outro lado, o diagnóstico tardio pode representar uma transformação pessoal significativa, permitindo a reconstrução da identidade, a compreensão das experiências vividas e a busca por intervenções apropriadas (LAMPER MARTINEZ, 2025). Contudo, esse processo é permeado por desafios emocionais e necessidades complexas, que incluem a ressignificação da trajetória de vida e a adaptação a novas realidades psicossociais (MÜHLEN, 2024).
Este estudo tem como objetivo oferecer uma análise comparativa sobre o diagnóstico do TEA em adultos, integrando evidências recentes da neurociência, psicologia e psiquiatria em um debate crítico que aborde as barreiras enfrentadas, os impactos do diagnóstico e as recomendações para aprimoramento da prática clínica e das políticas públicas.

2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Evolução e Complexidades dos Critérios Diagnósticos
A conceituação do Transtorno do Espectro Autista (TEA) teve início com as descrições de Kanner (1943) e Asperger, que delinearam perfis distintos. Os manuais diagnósticos anteriores, como o DSM-IV e a CID-10, segmentavam o espectro em categorias como autismo clássico e Síndrome de Asperger. Essa segmentação limitava o reconhecimento de quadros atípicos em adultos, o que foi reformulado com o DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013).
O DSM-5 consolidou os transtornos sob a denominação única de TEA, enfatizando níveis de suporte e severidade, o que ampliou o potencial diagnóstico para adultos com manifestações menos evidentes na infância. A CID-11, por sua vez, manteve alinhamento conceitual e acrescentou diretrizes para avaliação funcional contextualizada (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).
Entretanto, a aplicação dos critérios em adultos enfrenta desafios, como a dependência de relatos retrospectivos da infância e a camuflagem social, dificultando a observação clínica direta (HAPPÉ et al., 2016). Ferramentas como o módulo 4 do ADOS-2 e o Quociente do Espectro do Autismo (AQ) são utilizadas, mas apresentam limitações quando aplicadas isoladamente, exigindo adaptações culturais, especialmente aqui no Brasil (REVISTA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA E PSIQUIATRIA, 2023).

2.2 Barreiras Estruturais, Sociais e Psicossociais ao Diagnóstico em Adultos
Estudos apontam barreiras multifacetadas que dificultam o diagnóstico do TEA em adultos. A Tabela 1 apresenta uma estimativa das principais barreiras com base na literatura científica:
Tabela 1 – Estimativa das principais barreiras ao diagnóstico do TEA em adultos
Barreira Estimativa (%)
Falta de profissionais capacitados 35%
Estigma social 25%
Comorbidades psiquiátricas 20%
Dificuldade em relatar sintomas 15%
Falta de instrumentos validados 5%
Fonte: Elaboração própria com base em Cunha (2025), Silva et al. (2023a) e Agência Brasil (2025).
A escassez de profissionais especializados compromete o acesso e a qualidade das avaliações clínicas (CUNHA, 2025). O estigma social, presente em ambientes familiares e profissionais, desestimula a busca por diagnóstico (AGÊNCIA BRASIL, 2025). Além disso, a sobreposição de sintomas com comorbidades como depressão e ansiedade dificulta o diagnóstico diferencial (SILVA et al., 2023a). A ausência de registros e a subjetividade da memória adulta também dificultam relatos retrospectivos confiáveis.

2.3 Impactos Subjetivos e Psicossociais do Diagnóstico Tardio
O Transtorno do Espectro Autista faz parte dos Transtornos do Neurodesenvolvimento, conforme o DSM 5 – TR (APA, 2022). Esta categoria de transtornos diz respeito a uma série de déficits de desenvolvimento que geralmente se manifestam no início do desenvolvimento, por vezes antes da inserção da criança na escola. Estes transtornos também podem ser caracterizados por diferenças nos processos cerebrais que podem ocasionar prejuízos no funcionamento ocupacional, pessoal, acadêmico e social (APA, 2023).
Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, ou DSM 5 – TR (APA, 2022), o Transtorno do Espectro Autista tem como características centrais dificuldades persistentes na comunicação e interação social, padrões de comportamentos repetitivos e interesses restritos, características estas que estão presentes na vida da pessoa autista desde seus primeiros anos de vida, podendo ser identificadas desde a primeira infância.
O ideal é que o diagnóstico de TEA seja realizado desde a primeira infância, ocorre que nem sempre é assim e receber o diagnóstico de TEA na vida adulta pode desencadear um processo emocional profundo e multifacetado. Para muitos, o diagnóstico representa uma validação das experiências vividas, favorecendo o autoconhecimento e a reconstrução da identidade (LAMPER MARTINEZ, 2025). No entanto, esse processo também pode suscitar sentimentos ambíguos, como alívio, arrependimento, tristeza e incerteza existencial.
O acolhimento familiar e social é determinante nesse contexto. As reações variam entre apoio, culpa e até rejeição, influenciando diretamente a adaptação do adulto diagnosticado. A ausência de suporte adequado pode intensificar o sofrimento psíquico, aumentar o risco de comorbidades e comprometer a qualidade de vida (MÜHLEN, 2024).
Estudos indicam que intervenções psicossociais específicas, como grupos de apoio, psicoterapia especializada e programas vocacionais personalizados, promovem resiliência, inclusão social e autonomia (REVISTA PFC, 2025). Essas estratégias devem ser integradas a políticas públicas que reconheçam as singularidades da população adulta no espectro e garantam acesso contínuo a serviços de saúde mental.

3. METODOLOGIA
Este estudo foi desenvolvido por meio do método comparativo, com o objetivo de integrar evidências científicas nacionais e internacionais sobre o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em adultos. A pesquisa contemplou quatro etapas principais:
Identificação: Levantamento bibliográfico em bases como PubMed, SciELO, Cochrane e Recima21, priorizando publicações entre 2009 e agosto de 2025. Foram selecionados artigos originais, revisões sistemáticas e diretrizes clínicas relacionadas ao diagnóstico de TEA em adultos.
Análise: Comparação dos critérios diagnósticos presentes no DSM-5 e na CID-11, bem como das barreiras estruturais, sociais e subjetivas identificadas nos estudos. A análise incluiu aspectos clínicos, psicossociais e epidemiológicos.
Composição: Organização temática dos achados, elaboração de quadros e tabelas que sintetizam os dados mais relevantes, e integração das fontes em uma narrativa crítica e coerente.
Conclusão: Formulação de recomendações práticas para a melhoria da prática clínica, capacitação profissional e elaboração de políticas públicas voltadas à população adulta no espectro.
A metodologia adotada visa garantir rigor científico, validade dos dados e relevância social, respeitando os princípios éticos da pesquisa acadêmica.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Avanços e Tendências Diagnósticas (2013–2025)
A consolidação do TEA como espectro único no DSM-5 e na CID-11 representou um marco na compreensão clínica do transtorno. A padronização dos critérios permitiu maior abrangência diagnóstica, especialmente em adultos com manifestações atípicas ou compensadas. Ferramentas como o ADOS-2 (módulo 4) e o Quociente do Espectro do Autismo (AQ) passaram a ser aplicadas com maior frequência, embora ainda enfrentem limitações quanto à sensibilidade e à adaptação cultural (FERREIRA, 2025; REVISTA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA E PSIQUIATRIA, 2023).
A formação de profissionais especializados em diagnóstico adulto avançou, mas permanece insuficiente em diversas regiões. A literatura aponta que a capacitação continuada e a inclusão de conteúdos sobre TEA adulto nos currículos de graduação são estratégias eficazes para ampliar o acesso ao diagnóstico (CUNHA, 2025).

4.2 Inter-relações das Barreiras e Implicações para Políticas Públicas
As barreiras ao diagnóstico do TEA em adultos não atuam isoladamente. A escassez de profissionais capacitados limita o acesso, o que perpetua o desconhecimento sobre o transtorno e reforça o estigma social. Esse ciclo dificulta a busca por diagnóstico e compromete a inclusão da população adulta no espectro (LEWIS, 2017; AGÊNCIA BRASIL, 2025).
Políticas públicas que integram capacitação profissional, campanhas de conscientização e oferta de serviços especializados têm se mostrado eficazes em países que adotaram abordagens intersetoriais. No Brasil, iniciativas regionais apontam avanços, mas ainda carecem de articulação nacional e financiamento contínuo (RONZANI, 2023).

4.3 Recomendações para Apoio Psicossocial Pós-Diagnóstico
O diagnóstico tardio exige suporte contínuo e multidisciplinar. Grupos de apoio, psicoterapia especializada e programas vocacionais personalizados são estratégias que promovem autonomia, inclusão social e bem-estar emocional (MÜHLEN, 2024; LAMPER MARTINEZ, 2025).
A articulação entre saúde, assistência social e educação é essencial para garantir o acompanhamento integral. A criação de redes de apoio com participação ativa de adultos autistas fortalece a efetividade das intervenções e contribui para a construção de políticas públicas mais inclusivas (REVISTA PFC, 2025).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em adultos representa um desafio urgente nas áreas da saúde mental, psicologia e psiquiatria, exigindo atenção prioritária nas políticas públicas, na formação profissional e na prática clínica. Apesar dos avanços trazidos pelo DSM-5-TR e pela CID-11, uma parcela significativa da população adulta permanece sem diagnóstico ou com acesso limitado a suporte adequado.
O diagnóstico tardio do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em adultos é uma realidade que traz uma série de desafios significativos. Os adultos, que recebem o diagnóstico tardiamente, enfrentam dificuldades substanciais em vários aspectos de suas vidas.
Entre os principais desafios sociais enfrentados, destaca-se o impacto nas habilidades do ser humano como interação social, comunicação, linguagem e aprendizagem, gerando diversos desdobramentos que estão ligados ao preconceito, estigmatização e falta de estruturas que deem suporte para uma boa participação social dessas pessoas. Esses indivíduos, muitas vezes, passam anos sem uma compreensão clara de suas dificuldades, o que pode levar a sentimentos de exclusão e desajuste. A falta de diagnósticos precoces e de intervenções adequadas pode contribuir para o agravamento da situação de preconceito e exclusão social.
É essencial promover ações que ampliem o acesso ao conhecimento sobre o TEA, com campanhas públicas de conscientização que desconstruam preconceitos e paradigmas ultrapassados. A formação continuada deve ser fortalecida não apenas para profissionais da saúde mental, mas também para educadores, técnicos e agentes comunitários, que desempenham papel estratégico na detecção de sinais e no encaminhamento adequado.
No campo científico, é necessário incentivar pesquisas sobre os impactos psicossociais do diagnóstico tardio e testar modelos de acompanhamento de longo prazo. Projetos colaborativos entre universidades, hospitais-escola, associações de autistas e órgãos públicos devem priorizar a participação ativa de adultos autistas. Programas públicos estruturados de rastreamento e acompanhamento integral são recomendados, integrando políticas de capacitação, apoio psicossocial, inclusão produtiva e garantia de direitos.
O fortalecimento da pesquisa com financiamento público e a consolidação de redes colaborativas são medidas-chave. A formação contínua e integral de profissionais de saúde e educação é peça central para diagnosticar precocemente e oferecer suporte efetivo, pavimentando o caminho para uma sociedade mais justa, inclusiva e plural.

REFERÊNCIAS
AGÊNCIA BRASIL. Autismo: entenda os impactos do diagnóstico tardio em adultos. Brasília, abr. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-04/autismo-entenda-os-impactos-do-diagnostico-tardio-em-adultos. . Acesso em: 10 ago. 2025.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5. ed. Arlington, VA: American Psychiatric Association, 2013.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Arlington, VA: APA, 2022.
CUNHA, L. Diagnóstico de TEA e impacto na vida adulta. Psicologia Contemporânea, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 112–130, 2025.
FERREIRA, L. F. A. Breve panorama sobre instrumentos para rastreio do Transtorno do Espectro Autista em adultos: revisão integrativa. Cadernos de Psicologia, Recife, v. 15, n. 2, p. 67–84, 2025.
HAPPÉ, F. G. et al. Demographic and cognitive profile of individuals seeking a diagnosis of Autism Spectrum Disorder in adulthood. Journal of Autism and Developmental Disorders, New York, v. 46, n. 11, p. 3469–3480, nov. 2016.
LAI, M.-C.; BARON-COHEN, S. Identifying the lost generation of adults with autism spectrum conditions. The Lancet Psychiatry, London, v. 2, n. 11, p. 1013–1027, nov. 2015.
LAMPER MARTINEZ, B. O autismo na vida adulta: desafios e diagnóstico tardio. Tismoo, São Paulo, abr. 2025. Disponível em: https://tismoo.us/blog/autismo-na-vida-adulta-desafios-e-diagnostico-tardio/. . Acesso em: 10 ago. 2025.
LEWIS, L. F. Barriers to formal diagnosis of autism spectrum disorder in adults: a mixed methods study. Journal of Autism & Developmental Disorders, New York, v. 47, n. 8, p. 2410–2424, ago. 2017.
MÜHLEN, R. Saúde mental de autistas adultos de diagnóstico tardio: experiências e desafios. Mental, São Paulo, v. 8, n. 2, p. 20–36, 2024.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde: CID-11. Genebra: OMS, 2020. Disponível em: https://icd.who.int/. . Acesso em: 10 ago. 2025.
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RONZANI, T. R. Instrumentos validados para o diagnóstico do TEA em adultos no Brasil: panorama atual. Recima21, v. 4, n. 2, p. 1–15, 2023. Disponível em: https://recima21.com.br/index.php/recima21/article/view/3797/2718. . Acesso em: 10 ago. 2025.
SILVA, J. R.; OLIVEIRA, A. M.; MARTINS, F. P. Impactos do diagnóstico tardio do transtorno do espectro autista em adultos: uma revisão integrativa. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 28, n. 2, p. 356–375, abr./jun. 2023.

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